25 de out de 2011

God save the King


# “Os blues tiveram um bebê chamado rock n’roll”. Esta frase, dita por Muddy Waters em uma velha canção, sintetiza com clareza de quem o rock descende. Porém entre o namoro e o nascimento, o rock n’roll teve um longo período de gestação onde, passo a passo, transformou as canções de trabalho dos campos de algodão no Sul dos EUA, em uma cultura que chocou e transformou socialmente o mundo. Sua história é longa e tortuosa, porém farei a seguir um breve resumo dos caminhos que levaram os trabalhadores negros do Texas, do Tennessee, até sua casa.
O rock não teve apenas um pai, porém existem aqueles que, dentro do seu talento natural, levaram suas próprias influências por outros caminhos, ajudando a transformar as mais variadas formas de música folk no que seria o rock muitos anos depois. Um desses principais personagens é Huddie Leadbetter, ou Leadbelly como  seus colegas de prisão o chamavam. Nascido na Louisiana e criado no Texas, Leadbelly cumpria pena de dez anos na Louisiana State Penitentiary quando foi descoberto pelo folclorista John Lomax. Leadbelly tinha como principal característica, tocar seu blues em um violão de doze cordas, dando assim um acento folk às suas canções recheadas de histórias fantásticas. Em 1935, tornou-se famoso da noite para o dia, perpetuando Midnight Special como um dos grandes standards da música em 1940.


O blues e o country & western começavam a caminhar cada vez mais juntos, quando Jackie Breston resolveu acelerar o andamento do seu rhythm & blues em Rocket 88 originando assim o primeiro single de rock que se tem notícia no final dos anos 40. Já Arthur Big Box Crudup não só aumentou o andamento do rhythm & blues como também trouxe aquela urgência eletrizante, que passou a ser a principal característica do rock. My Baby Left Me é o exemplo mais puro do rock n’roll como o ritmo ficaria conhecido anos mais tarde. Não é à toa que Elvis gravou não apenas My Baby Left Me como também That’s All Right em suas primeiras sessões de gravação.


Os irmãos Leonard & Philip Chess eram dois imigrantes poloneses que após, uma adolescência dura nas ruas da zona sul de Chicago, foram convocados para lutar na 2ª Guerra Mundial. Leonard, por ter tido poliomielite na infância, foi declarado incapaz para os serviço militar, ficando em Chicago e fundou o The L & L Cafee mais tarde o Mocambo. O sucesso dos bares deveu-se ao fato de que Chicago vivia um período de grande imigração dos negros vindos do sul que, ao sentirem saudades de seus lugares de origem, passaram a consumir tudo o que era relacionado ao blues. Assim sendo, Leonard trouxe para o bar Sunnyland Slim, que trouxe Muddy Waters, que trouxe Little Water, Jimmy Rogers e Big Crawford entre outros. Com tantos talentos a sua volta, Leonard resolveu entrar para a indústria do disco em 1947, comprando o Aristocrat Records que em pouco tempo se transformaria na Chess, gravadora dedicada exclusivamente ao blues. Aquela canção de Muddy Waters serviu para chamar atenção de Leonard Chess para aquele estranho termo (rock n’roll), que aprecia designar nada mais que um rhythm & blues um pouco acelerado, mas que já era popular entre os negros.
Charles Edward Berry chegou a Chicago na primavera de 1955, conseguindo uma audição com Muddy Waters, que, impressionado com a habilidade do jovem Chuck na guitarra, logo recomendou sua contratação a Leonard Chess. Na sua primeira sessão, Chuck grava Wee Wee Hours, um lento e sensual blues que trazia no piano Johnnie Johnson, seu companheiro desde Saint Louis. Determinado a fazer carreira como bluesman, Chuck queria que WeeWee Hours fosse o lado A de seu primeiro single, porém Leonard Chess ficou fascinado com uma outra canção que tinha um andamento mais rápido, e falava de garotos e carros velozes. Misturando blues, rhythm & blues e country, Maybellene foi co-creditada a Alan Freed, popular disc jockei que trazia para si o mérito de pela primeira vez haver usado o termo rock n’roll em 1952. Freed ainda trabalhando para a rádio WJW em Cleveland, já havia presenciado o fenômeno de ver garotos brancos comprando maciçamente discos de blues e rhythm e blues, que na época eram chamados pelos radialistas de race records por serem feitos por negros para negros. Alan esteve também envolvido em uma outra das primeiras histórias de sucesso no rock n’roll, produzindo o filme Rock Around The Clock, de Bill Haley. Haley tinha uma banda chamada The Saddlemen que após mudar o nome para The Comets passou a misturar o seu country & westerns com rhythm & blues é claro! A fórmula começou a dar certo fazendo um pouco de sucesso com Rock This Joint em 1951 e finalmente entrando na parada americana com Crazy Man Crazyem  em 53, que muitos consideram como o 1º disco de rock n’roll a se tornar um hit. Porém foi em 54 que, mudando-se da pequena Essex para a Decca Records, Haley lançou Rock Around The Clock. Inicialmente um fracasso, Rock Around The Clock, só foi explodir em todo mundo após ser o tema do filme (Blackboard Jungle), tornando-se assim o 1º standard de rock n’roll em todo mundo. 


De volta a Chess Records, Leonard tinha dois olheiros no sul: Ike Turner e Sam Philips, que procuravam e negociavam novos talentos para gravadoras maiores. Philips, que havia fundado o seu Sun Studio em 1950, sempre dizia que ficaria milionário se achasse um cantor branco que cantasse como negro. Em 53, Sam já havia ganho o suficiente para montar a sua própria gravadora, a Sun Records e um outro negócio paralelo, o Memphis Recording Sevices que, gravava em acetato, artistas amadores, interessados em ver seus talentos registrados por US$ 1.00 (!). No verão deste ano, Elvis Presley resolveu parar seu caminhão na porta do Memphis Recording Sevices para gravar My Happinesse That’s When Heartaches Begine e dar o acetato para sua mãe como presente de aniversário. A gerente do estúdio, Marion Keisker primeiro impressionada com a timidez do rapaz, depois com sua voz, consegue gravar em fita parte de My Happinesse That’s When Heartaches Begine inteira. Marion anota o nome e endereço do rapaz. Em uma segunda ida ao estúdio dez meses depois, Elvis mostra a Sam Philips várias baladas. Philips se impressiona com a emoção que o garoto colocava nas músicas. Paralelamente, Sam vinha trabalhando com um jovem guitarrista chamado Scotty Moore, que tocava em um grupo chamado Starlite Wranglers. Sam contou a Scotty sobre aquele cantor de costeletas que o havia impressionado. Marion prontamente forneceu a Moore endereço e telefone de Elvis. Ao primeiro contato, Elvis vai à casa de Scotty e, juntamente com o baixista dos Wranglers, Bill Black tocam algumas canções naquela tarde de domingo. Na 2ª feira, dia 6 de julho de 54, Elvis, Scotty & Bill reúnem-se nos estúdios da Sun para o que deveria ser apenas uma sessão de ensaios e que se tornou o embrião do som que iria assolar os quatro cantos do planeta. Após gravarem algumas baladas, durante um intervalo, Elvis pegou a guitarra e começou a cantar That’s All Right sendo acompanhado naturalmente por Scotty & Bill. Sam Philips pede ao grupo que repita a música, desta vez com o gravador rodando. Duas semanas depois, em 19 de julho, a Sun lança That’s All Right (Mama) com Blue Moon Of Kentucky e o mundo nunca mais foi o mesmo. Elvis pode não ter sido o primeiro cantor do gênero, mas o rock nunca se tornaria o furacão musical e sociológico que varreu o mundo, se não fosse aquela mistura inusitada de doses maciças de sensualidade, ingenuidade e fúria no momento certo.


Foi também a partir de Elvis que o rock deixou de ser a música dos negros e para negros, para tornar-se música de brancos e negros para todas as raças. Após 56, o mundo foi tomado por Elvis, Bill haley, Little Richard, Chuck Berry, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, tornando viáveis todas as misturas possíveis desde o blues-(rock) agora urbano de Bo Didley ao country pop-(rock) de Buddy Holly, passando-se pelo soul-(rock) de Sam Coock ao doo-wop-(rock)de Danny & The Juniors. Foram nesses anos subseqüentes, de 58 a 62, que a música pop viu incorporadas ao seu dia a dia todos os elementos que viriam a transformar os anos 60 num dos mais importantes períodos culturais da história recente da humanidade. Ainda nesta fase, a cultura teense cristalizou (Neil Sedaka, Paul Anka, Brenda Lee, etc), o country & western deixou de ser música de caipiras (a propósito foi Road Hogde de John D. Loudemilk que introduziu no Brasil a jovem guarda através da versão O Calhambeque com Roberto Carlos), além de influências de terras distantes como os Tokens trouxeram em The Lion Sleeps Tonight.


De Buddy Holly aos Isley Brothers (que tinham como guitarrista um garoto chamado James Marshall Hendrix), dos Beatles à Motown, o rock passou a ser mais aberta e democrática das culturas. #

* Texto extraído do encarte do Cd 40 Anos de Rock'n Roll
 

Nenhum comentário: