3 de dez de 2011

Desculpas esfarrapadas



-Corre, corre que o menino está agonizando!
-Como? Ele é tão novo, só tem 6 anos, nasceu robusto, cheio de esperanças, marcou época, não pode morrer assim.
- Está no setor de queimados. Dizem que este será o último fim de semana de vida dele. De segunda-feira não passa.
-Mas não tem jeito mesmo?
-O remédio é caro, e nem todos querem colaborar. Dizem que o socorro vai custar a perda do poder aquisitivo, que vai faltar no bolso.
- Dinheiro acima da vida? É o fim do mundo!


Especialistas alertam que pode ser mesmo o fim do mundo se o nosso “paciente”, o Protocolo de Kyoto, for enterrado de vez, em Durban, na África do Sul, durante a Cop 17, a cúpula sobre mudança climática. O protocolo é o único tratado mundial que obriga as nações industrializadas a reduzir as emissões de gases-estufa, considerados responsáveis pelo aquecimento da atmosfera.
Em 2005, 37 nações industrializadas mais a União Européia se comprometeram a reduzir os seus gases-estufa em 5,2%, em relação aos volumes de 1990, até 2012. Algum êxito foi alcançado. Os países que assinaram o documento conseguiram reduzir sua liberação de carbono em 8% em relação aos níveis de 1990, diminuindo sua contribuição nas emissões mundiais de 60% em 1990 para menos de 50% atualmente.
Mas a ciência diz que devemos reduzir as emissões em 40% até 2020, e em 95% até 2050 para garantir que o aumento da temperatura global não passe dos dois graus Celsius, em relação à média na era pré-industrial. Caso contrário, o clima do planeta poderá sofrer mudanças catastróficas. Neste mês, dois relatórios independentes da ONU disseram que os gases que provocam o efeito-estufa atingiram níveis recorde na atmosfera.


Enquanto o relógio corre para o prazo previsto pelo Protocolo, o mundo demonstra falta de interesse em sentar para conversar sobre mais reduções dos seus gases-estufa. Os negociadores dos países ricos evitam suas responsabilidades, tentando substituir um acordo internacional obrigatório por um compromisso voluntário e um sistema de revisão concebido pelo mundo desenvolvido.
Japão, Rússia e Canadá não querem saber. Os Estados Unidos, primeiro emissor de gases-estufa por habitante, continuam de fora. Negam-se a ratificar o Protocolo de Kyoto, de nariz empinado:
- Washington se opõe a qualquer estrutura hierárquica de regras “que alguém mais estabeleceu”, disparou o delegado norte-americano, Jonathan Pershing.
A Alemanha até aceita os cortes obrigatórios em suas emissões de gás carbônico e metano, se o esforço for feito também pelos países em desenvolvimento como o Brasil. Para a chanceler Angela Merkel, os países ricos já enfrentam uma crise econômica e não querem ser obrigados a fazer reduções que exijam altos investimentos.
-Cada um com seus problemas, defendem-se os emergentes.
Os novos dragões despertaram de um longo sono e agora não querem parar de cuspir fogo. A chaminé se agiganta com ares de novo rico, voraz com suas chamas da produção e do consumo.
China , Brasil e Índia alegam que a conta do aquecimento global é dos países ricos, que se industrializaram há mais de cem anos e são os principais responsáveis pela poluição. Portanto, não seria justo exigir que os países em desenvolvimento ponham o pé no freio de suas economias.
Desculpa esfarrapada.


Ora, o carbono que hoje ameaça a sobrevivência da espécie foi lançado numa época em que o mundo saía do obscurantismo e do atraso, em direção a um salto de qualidade. Os avanços científicos e tecnológicos, mais tarde democratizados entre as nações, vieram daquela fumaça. Os países industrializados não podem ser punidos pela mudança do paradigma. A nova ordem mundial exige o foco no presente e o esforço coletivo.
O impasse está criado. E com o mundo de pernas para o ar, as economias se derretendo, países se empobrecendo, a Europa em pânico, o mundo árabe com grande probabilidade de se tornar uma enorme nação islâmica sob leis do século V, acho que hoje, neste exato momento, somente o Al Gore e meia dúzia de seguidores, tem interesse nesse assunto. 

Por Rosana Jatobá, advogada, jornalista e mestranda em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP.

 

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